Alimentos orgânicos estão entre as grandes tendências dos tempos modernos. Quem os consome pensa em seus benefícios para saúde e para o meio ambiente. Mas na verdade eles estão bem distante desses nobres objetivos. Vejamos, então, devidamente desmentidas, as principais afirmações aplicadas aos orgânicos que sempre se ouviu mas que não correspondem aos fatos.

1. Alimentos orgânicos não utilizam agrotóxicos.

Agrotóxico é uma denominação utilizada somente no Brasil. Os agrotóxicos são sinônimos de: pesticidas, praguicidas, agroquímicos, defensivos agrícolas, produtos fitossanitários, etc. É comum a imprensa, e até mesmo a legislação, alternar esses nomes conforme a conveniência. Agrotóxicos, as substâncias usadas na agricultura tradicional; e produto fitossanitário, ou simplesmente “substâncias ativas”, aquelas aplicadas no cultivo de orgânicos. Uso de nomes mais aceitáveis ou mais desagradáveis não faz diferença. Todas essas substâncias são utilizadas no controle e combate de pragas e doenças das plantas, isto é, são pesticidas, nome mais usado internacionalmente, ou, no Brasil, agrotóxicos.

Dependendo do pais a legislação é mais ou menos restritiva. Na legislação americana de orgânicos é permitido o uso de piretrinas (extraída do crisântemo), e, em geral, são permitidos compostos como sulfato de cobre, sulfato de alumínio e enxofre. Na legislação Brasileira, diversos compostos como extratos de vegetais, caldas químicas alcalinas, extrato de folhas de fumo e óleo de sementes de neem são permitidos. Desses três produtos derivados de vegetais, somente as piretrinas não estão previstas para uso na legislação Brasileira. Todos esses são considerados naturais, mas estão longe de serem tão seguros como se pensa.

2. Os insumos usados na agricultura orgânica são naturais, e por isso, não são perigosos.

Natural não significa seguro. Diversos produtos naturais estão em desuso na agricultura tradicional há tempos por razões diversas como custo, dificuldades no uso, pouca eficiência para combater as pragas e doenças, além do elevado risco para uso e manipulação.

O óleo de sementes de neem e folhas de fumo podem ser bem tóxicos para quem manipula e aplica. O óleo já se provou perigoso por provocar respostas alérgicas graves em manipuladores, e está relacionado a casos de leucemia nos trabalhadores. É também danoso para a fauna aquática, e para um besouro predador de pragas. Sua dose letal (DL50) é calculada em 14ml/Kg de peso corpóreo (p.c). Já a nicotina das folhas de tabaco tem dose letal de 0,8 mg/kg p.c. E todos são extremamente tóxicos para peixes, abelhas e animais aquáticos.

Em comparação, os modernos pesticidas aprovados atualmente possuem dose letal de 2.448 mg/Kg p.c. em média. Isso significa que para causar a morte de alguém é necessário uma dose cerca de 3.000 vezes maior de um agrotóxico convencional do que de nicotina das folhas de tabaco.

Dentre os fertilizantes naturais permitidos para uso no solo estão vários exemplos, também autorizados para a agricultura convencional, como calcário, pó de rocha, fosfatos e sulfatos, então não há diferença significativa quanto a adubação mineral das duas formas de cultivo.

3. Agricultura orgânica respeita a natureza e é melhor para as pessoas.

A quantidade de terras necessárias para que toda a agricultura tradicional se transformasse em orgânica deveria ser 200% maior, segundo estudo europeu. Isso causaria o aumento significativo da devastação de florestas e biomas, para dar lugar a plantações, já que a produtividade da agricultura orgânica é bem menor por hectare.

O uso de estercos para a adubação causa mais problemas. Contaminação dos manipuladores por doenças infecciosas, e contaminação dos rios e lençois freáticos com material orgânico. O uso de adubos orgânicos já foi a causa de desastres humanitários no passado devido a destruição de plantações inteiras por fungos, provocando fome e mortes, como os 2 MILHÕES de mortos na Irlanda no século XIX. Além disso, estes fertilizantes podem causar a contaminação do alimento colhido por bactérias que podem ser mortais em humanos. O caso mais famoso disso foi a contaminação pela bactéria E. Coli em brotos de feijão, ocorrida em 2011 na Alemanha, matando 35 pessoas e internando outras 3 mil. Adivinhem qual o tipo de cultivo deste broto? Sim, eram brotos de feijão orgânico.

Contaminação de consumidores por microorganismos patogênicos em alimentos orgânicos é bem superior comparada com o consumo de alimentos convencionais. Nos EUA os casos de intoxicação por E. Coli e Listeria correspondem a 10% das ocorrências, contra 2% no caso de alimentos convencionais.

4. Agricultura orgânica é melhor para os trabalhadores rurais.

A quantidade de mão-de-obra aplicada à agricultura orgânica é bem superior. Porém, apesar de parecer bom existir mais vagas de trabalho com o campo empregando mais pessoas, o tipo de serviço, de acordo com a filosofia orgânica de produção, deve ser predominantemente manual. A poda, colheita, pulverização, e adubação são feitos por pessoas sem maquinário moderno. Isso significa que, ao invés de utilização de maquinário que aumenta a produtividade e facilita o trabalho, numa fazenda orgânica trabalhadores precisam se submeter a exaustivas tarefas com o uso das mãos e ferramentas básicas.

Com certeza a volta ao passado em mais de um século, imitando as práticas dos primeiros imigrantes assalariados (que geram lindas cenas nas novelas, mais que são duríssimas na realidade) não agrada a maioria dos trabalhadores, nem é boa para a saúde deles.

5. Alimentos orgânicos não contém aditivos.

Não há nada na legislação que impeça que os alimentos industrializados orgânicos sejam adicionados de corantes, aromatizantes, acidulantes e outros aditivos. A legislação que define quais podem ser usados, é mais restrita sim, mas ainda assim existem 38 aditivos permitidos. Alimentos processados, e até os in natura como frutas e peixes, podem ser adicionados de todos os aditivos previstos na legislação de orgânicos.

A diferença entre os aditivos normalmente permitidos para alimentos é que para nos orgânicos são permitidos os considerados “naturais”, e apesar de todos os aditivos serem muito seguros quando usados adequadamente, como dito anteriormente, natural não significa o mais seguro ou o melhor, significa, simplesmente, que sua origem é diferente dos demais.

6. Alimentos orgânicos são mais saudáveis e gostosos.

Frutas orgânicas continuam carecendo de proteínas como as frutas convencionais, uma manteiga orgânica continua rica em gorduras. Um refrigerante orgânico pode conter a mesma quantidade de açúcar orgânico que um convencional, uma batata frita orgânica com sal orgânico também possui os mesmos malefícios do excesso de sódio de um produto convencional, assim como o amendoim, ovo ou leite orgânicos, continuam causando alergias em pessoas sensíveis. A natureza básica do alimento continua a mesma na versão orgânica.

Quanto ao gosto, isso depende da preferência de paladar de cada um. Mas, ao que parece, de acordo com testes de degustação, essa sensação subjetiva, também não aparenta ser significativamente diferente para a maioria das pessoas.

7. Alimentos orgânicos são mais nutritivos.

Não há significativamente diferença entre a quantidade de nutrientes entre produtos dos dois meios produtivos. Pesquisa realizada pelo Instituto Tecnológico de Alimentos (ITAL) avaliou 52.741 publicações científicas e concluiu não ser possível afirmar que existem diferenças no teor de nutrientes de alimentos orgânicos e convencionais. O mesmo resultado, de outro estudo semelhante, também publicado no American Journal of Clinical Nutrition, chegou à mesma conclusão.

Em pesquisa similar, da Universidade de Stanford, examinando 240 artigos científicos, os autores concluíram que faltam evidências de que alimentos orgânicos são mais nutritivos.

8. Agricultor familiar é sinônimos de agricultor orgânico.

Essa informação errada e enganosa está escrita em publicações ideológicas, como o já bem comentado Guia Alimentar para a População Brasileira, 2°edição. A definição legal de agricultor familiar está na Lei n°11.326 de 2006, enquanto que agricultura orgânica está estabelecida pela Lei n°10.831 de 2003.

É exigido que um produtor familiar tenha a maior parte da mão de obra feita pelos membros da família, e o tamanho da propriedade e a renda máxima dela gerada são limitados. Somente são produtores familiares orgânicos os agricultores familiares inseridos em processos próprios de organização e controle social (grupos, associações, institutos…), previamente cadastrados junto ao órgão fiscalizador.

Então, uma coisa não tem nada a haver com a outra. Uma classificação trata de tamanho, da renda e da mão-de-obra da propriedade, já a outra trata dos métodos, insumos e meios de produção. Ademais, os maiores problemas com fraudes e irregularidades em orgânicos são oriundos destes produtores, que vendem sua produção de frutas, verduras e legumes em feiras locais, e devido à falta de controle oficial na produção, tem suas vendas permitidas de produtos como orgânico baseadas somente em suas palavras de honra.

9. Alimentos orgânicos são ecologicamente corretos.

A natureza não esta de acordo com essa informação. Em trabalho feito pela Universidade de Oxford, numa revisão de 109 artigos, concluiu-se que a agricultura orgânica apresenta maior emissão de amônia e gás carbônico, lixiviação de nitrogênio (carregamento de substâncias da superfície para níveis mais profundos), elevada eutrofização (presença de excesso de nutrientes nas águas, causando aumento de organismos como algas), e acidificação do solo, comparada à agricultura convencional.

E na revista New Sciense, em 2016, o pesquisador Michel Le Page argumenta que a agricultura orgânica, devido à sua menor produtividade, assim como a dificuldade de cultivo em condições adversas, a torna maior emissor de gases de efeito estufa, que a agricultura convencional.

10. Apesar do preço, orgânicos acabam sendo mais baratos, pois você economiza em medicamentos futuros.

Alimentos orgânicos não são mais baratos, nem seu alto preço “se paga” no futuro, devido aos seus benefícios. A grande diferença de preços pode ser conferida por qualquer pessoa no mercado. A variação para cima dos preços chega a 300% para o café e 740% para chocolate, com variação de 60% e 70% nas frutas e vegetais orgânicos.

A explicação para isso é simples, as pessoas que podem, estão mais dispostas a pagar caro por aquilo que elas veem como vantajoso para a saúde. Já que, todo marketing de venda dos orgânicos é baseado em falácias científicas, os preços elevados se sustentam e dão altos lucros aos produtores e comerciantes. Os alimentos orgânicos que poderiam ser mais em conta são os encontrados em feiras locais, de agricultores da região, vendidos sem atravessadores. Mas, lembre-se que esses produtores são os campeões de casos de fraude e irregularidades encontradas nesse tipo de comércio no Brasil, onde se vende produtos comuns como se fossem orgânicos.

Então, quer dizer que orgânicos são enganosos e não possuem vantagens alguma para o consumidor?

Primeiramente, o consumidor deve ter opções de escolha, liberdade para usar seu dinheiro como bem quiser e ter suas preferências, e ainda poder mudar de opinião quando bem entender. Mas, para isso ele deve ser esclarecido sobre as verdades, vantagens e desvantagens de cada escolha.

Quanto maior o acesso a tipos variados de produtos: convencionais, orgânicos, vegetarianos, artesanais, biodinâmicos, veganos, halal, kosher, dietéticos, sem glúten, sem lactose…melhor. Entender o que esses nomes significam e fazer suas escolhas de acordo com a sua vontade é essencial.

O consumo de orgânicos pode ser feito por qualquer um que os preferir, seja por questões ideológicas, ou porque dinheiro não é o problema, ou por conforto psicológico, ou para se sentir incluído em um grupo adepto a essa alimentação, ou ainda para exibir o status de ser mais engajado e melhor cidadão.

Mas, a verdade dos fatos, que contraria muito dos mantras e slogans dos produtores, vendedores e comerciantes destes produtos, deve ser sempre levantada e vista sob embasamento científico. É o “marketing da felicidade”, como diz o Jornalista Nicholas Vital, que deve ser desmistificado.

Grandes empresas já perceberam os lucros e o crescimento deste mercado sustentado por publicidade fantasiosa, hoje bem dominado por multinacionais e varejistas de extensão internacional (esqueçam orgânicos como produtos artesanais de pequenos agricultores) e também por famosos, como o empreendimento Vale das Palmeiras, do global Marcos Palmeira. Aliás, o mercado é estimulado por personalidades influentes e artistas (que sabem interpretar bem o papel de grande conhecedor tanto de agricultura quanto de ciência de alimentos como fariam se interpretassem qualquer outro personagem), nos quais eles próprios lucram, e bastante por sinal, com isso (sem serem chamados de capitalistas exploradores e opressores) e ainda recebem os créditos por serem empresários conscientes e “do bem”.

E ai, vai maçã do Marcos Palmeira por R$ 23,00/kg, tia do Leblon?

Referências Bibliográficas:

  • Graziano, Xico. Agricultura: fatos e mitos: Fundamentos sobre um debate racional sobre o Agro – São Paulo: Baraúna, 2020.
  • Ministério da Saúde. Guia Alimentar da População Brasileira, 2° edição, Brasília: Ministério da Saúde, 2014.
  • Vital, Nicholas. Agradeça aos Agrotóxicos por estar vivo. 2° ed. Rio de Janeiro: Record, 2017.
  • H.L.Tuomisto; I.D.Hodge; P. Riordan, D.W., Macdonald. Does organic farming reduce environmental impacts? – A meta-analysis of European research. Journal of Environmental Management; Volume 112, 15 December 2012, Pages 309-320. Disponível em: <http://www.sciencedirect/science/article/pii/S0301479712004264>

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