Por P. Fernandes

O pior de todos os delírios é a idéia de que ‘a natureza’ concede certos direitos a todos os homens. De acordo com essa doutrina, a natureza é generosa com cada criança que nasce (…)”

“A natureza não é generosa, mas mesquinha. Ela restringe o fornecimento de todas as coisas indispensáveis para a preservação da vida humana. Povoou o mundo de animais e plantas cujo o impulso para destruir a vida humana e o bem-estar é inato.

Esse texto de L. V. Mises extraído do livro A mentalidade Anticapitalista, vemos uma observação apurada daquilo que muitos se negam a admitir, a sobrevivência da raça-humana dependeu desde sempre do domínio e da superioridade racional do homem sobre a natureza.

A idéia da separação com a dicotomia irremediável entre natureza e ser humano, onde uma é perfeita e boa enquanto o outro é essencialmente mau e arqui-inimigo da primeira, é um pensamento simplista mas que encontra-se enraigado na mentalidade da opinião pública. Problemas de extinções e da perda do equilíbrio da natureza (como se essa fosse uma coisa estática e com equilíbrio permanente), reforçam essas idéias, de que o homem é um invasor e aproveitador impiedoso do meio ambiente, e que isso resultará, por fim, na extinção maciça, dele e de todos os demais seres vivos.

Desequilíbrio a favor da natureza.

A busca pela sua sobrevivência e da melhora da sua condição de bem-estar levou o homem a desenvolver mecanismos para vencer a resistência da natureza contra sua existência e domínio. A agricultura desenvolvida entre 9500 e 8500 anos a.C., tirou o Homo Sapiens da sua condição de caçador errante para o papel mais seguro e confortável de cultivador de cereais e criador de animais.

Mas o crescimento da população humana sempre esteve limitado em toda a história pela fome. Mesmo os clássicos processos de conservação dos alimentos como secagem (12000a.C.), fermentação (5000a.C.), a salga (1500a.C.) o uso de substancias químicas (850a.C.) juntamente com os métodos de produção agrícola melhorando a passos lentos – com a invenção do arado, moinho de água e de vento, carroça de três rodas, todos descobertos na Idade Média – não foram suficientes para enfrentar a fome, a desnutrição e a mortalidade infantil que continuaram como acontecimentos comuns e regulares.

Por milênios o homem esteve preso a armadilha Maltusiana, num ciclo eterno de pobreza e carências que, ocasionalmente, com o aparecimento de pequenas melhoras nas condições do meio causavam o aumento da população, mas que logo era inibido pela excassez de alimentos.

Desequilíbrio a favor do homem.

Até que a melhora da tecnologia produziu o aumento da produção (produção em massa), de bens advindos da revolução industrial nas cidades chegaram também ao campo, graças ao advento da propriedade privada da terra acabando com os campos coletivos da época medieval. Máquinas e produtos tecnológicos começaram a dominar a agricultura com novas forma de cultivo das plantações, como a semeadeira (1782), a colheitadeira (1834), o uso de adubos químicos (1842) e uso de pesticidas (1939), que desempenharam grande suporte para o objetivo da resistência e crescimento da vida humana.

Os processos mais modernos de conservação de alimentos também foram desenvolvidos pela tecnologia e baseados em princípios científicos ocorreram nos últimos 200 anos impulsionados pela demanda e a necessidade de aumento da disponibilidade e duração para o consumo dos alimentos processados. A refrigeração (1850), a pasteurização (1865), e os ultra-modernos: uso de ozônio (1935), radiações como ultravioleta (1936), esterilização rápida (1962) embalagens com atmosfera controlada (1978).

Correspondente a esses períodos a população mundial cresceu de forma acentuada, de um nível estável de 500 milhões de pessoas por mais de mil anos, alcança a 731 milhões em 1750 aumentando para 3 bilhões em 1960 e chegando a 7 bilhões em 2015. Sem o crescimento da quantidade e qualidade dos alimentos (melhora da segurança alimentar) esse crescimento populacional não seria possível.

Sem a mudança para o modelo agrícola moderno que veio a reboque da revolução industrial, combatendo o problema da fome e mortandade, nunca conseguiríamos chegar ao ponto atual. O modelo de produtividade, por alcançar maior produtividade por área, liberou também mais espaço para a criação de áreas de conservação ambiental existentes hoje em dia, e necessitando de menos pessoas para produzir, mais pessoas puderam escolher seu destino em novos negócios além do campo.

Todas as melhoras ocorridas ao longo dos últimos séculos só aconteceram quando houve liberdade de ação racional do ser humano em busca de seu próprio bem estar e pelo uso racional dos meios ao seu redor de forma que eles fossem benéficos a sua sobrevivência. A propriedade privada também foi essencial para essa evolução.

Como explica o economista e filósofo Hans H. Hoppe “O ser humano nasce indefeso e, como tal, precisa utilizar a sua mente para aprender a como obter os recursos que a natureza lhe fornece e a como transformá-los (por exemplo, através do investimento em “capital”) em objeto e em locais de modo que possam ser utilizados para a satisfação das suas necessidades e para a melhoria do seu padrão de vida. (…) Ele realiza isto, primeiro, encontrando recursos naturais, segundo, transformando-os (“misturando seu trabalho a eles”, tal como disse John Locke), fazendo deles a sua propriedade individual, e depois trocando esta propriedade pela propriedade de outros que foi obtida de forma semelhante.”

*P. Fernandes é farmacêutico e trabalha na inspeção de alimentos e medicamentos.

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