Cantando na Chuva, com fortes ventos à esquerda

 

Até mesmo as gerações mais novas conhecem, ou pelo menos já ouviram falar, do famoso ator, coreografo e dançarino americano estrela do cinema na fase áurea de Hollywood dos anos 40 e 50: Gene Kelly. Seus maiores trabalhos estão distribuídos em diversos filmes musicais como o premiadíssimo Sinfonia em Paris (An american in Paris, 1951) e principalmente o conhecidíssimo e inesquecível Cantando na Chuva (Singing in the rain, 1952).

Os filmes americanos da época, principalmente os musicais, eram uma fuga da realidade. Mostravam uma ambiente idealizado: ruas e lojas limpas e arrumadas, pessoas simpáticas e alegres (todas ótimas dançarinas e cantoras quando chegava o momento para isso) e tramas sempre com finais felizes. Até os cenários dos filmes que imitando locais reais, como hotéis famosos e cidades inteiras, eram mais bonitos e atraentes que os originais. Todas essas características faziam a plateia viajar, suspirar e sonhar com realidade fictícia, bem longe da realidade de suas vidas. Essa visão sonhadora atraia milhões de espectadores do mundo inteiro para as salas de cinema.

Outro dançarino também excepcional do cinema da época foi Fred Astaire. Ele também fazia mágica com seus pés, pernas, mãos e corpo inteiro. Embora ambos fabulosos, o contraste entre o perfil dos personagens de Kelly e Astaire é evidente em seus filmes. Astaire é esquio e chique, sempre elegante, com andar leve e suave, protagonizando personagens aristocráticos; era o retrato da elite e da classe superior americana. Kelly, por outro lado, era forte, atlético, sorridente, realizava passos como de malabarismo em suas danças, frequentemente aparecia na tela vestido como garotão simpático e atraente, trabalhador braçal, marinheiro, soldado, ou ao lado de crianças e personagens infantis, ou ainda, executando passos sobre patins ! ou interagindo com objetos comuns, “chamando para dançar” tampas de latas de lixo e esfregões.

Devido a sua figura pessoal e aos filmes em que atuou, Kelly se autodeclarava um “proletário”, aparentemente devido ao seu contraste com o colega “burguês” Fred Astaire. Em sua biografia lançada em 1997, Gene Kelly – A celebration, seu biógrafo deixa claro que Kelly era simpatizante e adepto da esquerda, juntamente com sua esposa, uma ativa militante socialista. Certa vez, ele xingou o todo-poderoso dono de estúdio Cecil L. B. Mayer por carta, dizendo que não estava interessado a trabalhar com um “vagabundo de direita”

Embora artista famoso, e merecidamente, em boas condições financeiras, trabalhando para o maior e mais rico estúdio de Hollywood, Kelly e outros de sua época deviam se considerar relativamente oprimidos pelo sistema capitalista em que trabalhavam, e de certa forma explorados pelos seus patrões. Possivelmente, sabendo dos milhões de dólares de lucro pelos filmes campeões de bilheteria na mão de magnatas do cinema, (e imaginando-os sentados em suas poltronas de couro legitimo saboreando um charuto acesso com notas de cem dólares e tendo ao colo suas secretárias pessoais) qualquer um que olhe e compare essa visão com sua condição se achará um injustiçado, roubado e explorado, e desejará firmemente que toda aquela grana fosse melhor dividida consigo e com os demais trabalhadores proletários.

Esse pensamento raso sobre os lucros dos filmes indo para as mãos dos proprietário de estúdio e sócios, não leva em conta os custos dos filmes para serem produzidos, editados e divulgados e distribuídos, assim, somente os campeões de bilheteria chamavam atenção, e ninguém lembrava dos fracassos que sequer se pagavam, nem mesmo os atores, que recebiam seu ordenado conforme contrato e não precisavam se preocupar com o resto.

Como acorre de maneira frequente, o brilhantismo mostrado em uma área específica de atuação, no caso de Gene Kelly: dança, interpretação, canto; não se mantém quando se trata de pensamento político e social-econômico. Esse é um erro facilmente cometido pelos adeptos e simpatizantes do socialismo, não importando seu nível intelectual específico. Nomes indiscutíveis de suas áreas escorregam feio nisso, como fez o cientista Albert Einstein, que deixou a genialidade de lado para defender pensamentos medíocres em coisas como o manifesto “Why socialism ?” (Porque o socialismo? ), além de fazer elogios a Lenin pela sua determinação e empenho.

Quem defende o socialismo tem, como princípio, defender a distribuição igualitária dos bens principalmente com os mais pobres, a limitação dos lucros dos empresários (teoricamente fruto do trabalho exploratório) a igualdade renda; e politicamente, apoia o controle e regulamentação estatal das atividades particulares, economia planejada e centralizada.

Socialismo prega o Estado grande e dominante sobre o capital privado, a centralização do poder e das decisões nas esferas mais alta da administração pública, suprimindo as decisões locais, entre outras formas de cerceamento da liberdade. Tudo isso para evitar os “abusos” dos endinheirados. Tudo conduzido pela burocracia eficiente e um imaginário governo bondoso e benevolente compostos de agentes públicos que seriam verdadeiros “anjos” encarnados que só agem com sabedoria e para o bem de todos.

Defendendo o socialismo, principalmente para os outros.

Mas quando vemos o contraste entre aquilo que apoiadores pensam e falam comparado com aquilo que fazem e reagem frente às situações reais, percebemos que os objetivos sonhados de igualdade de renda, de bens e caridade absoluta entre as pessoas, tudo sob o manto de especialistas estatais altruístas, não passam de cenários pertencentes ao mundo dos sonhos.

Mesmo defendendo o Estado grande socialista, o proletário Gene Kelly sentiu na própria pele o avanço do Estado sobre sua família e seu trabalho. Com o cinema em crise financeira no fim da década de 1950, e com a proposta do governo americano de promover incentivos fiscais a quem se ausentasse por um tempo do país, o ator e esposa esqueceram seus ideais de distribuição dos bens e de justiça social que poderia ser feita com seus impostos, e decidiram passar 18 meses longe dos colegas proletários americanos, a fim de preservar suas rendas. Quando o cinto aperta, todos ficam mais sensíveis com as necessidades próprias e não com as dos outros.

Além disso, sua família por parte de sua esposa Betsy Blair foi investigada pelos congressistas americanos por ações subversivas, o famoso Macarthismo, que buscava comunistas envolvidos em ações antiamericanas nos meios de Hollywood. Para piorar, a partir de 1948 uma nova investida do Estado americano, durante o governo de esquerda do presidente democrata Truman, a Lei antitruste, proibiu que os estúdios de cinema de serem, ao mesmo tempo, produtores e exibidores. Os estúdios, então, seriam obrigados a vender suas enormes cadeias de cinemas. Sem a exibição garantida, a produção caiu e muita gente foi demitida. Assim, os filmes musicais caríssimos para serem produzidos, e que eram a especialidade de Kelly, entraram quase em extinção, causando muitas demissões e desemprego diretos e indiretos, inclusive para Kelly, que quando voltou do autoexílio na Europa encontrou-se desempregado.

Esses casos mostram bem o medo terrível, e secretamente também a inveja, que esquerdistas tem das grandes fortunas e de empresários do mercado como os do cinema. Porém, todo esse dinheiro e suposto poder não arranham a superfície do poder não só monetário, mas também político, utilizando o monopólio da força e da violência, que o Estado por meio de uma assinatura presidencial ou uma comissão de congressistas tem sobre a vida de toda uma classe profissional e uma cadeia econômica inteira envolvendo milhares de vidas e empregos.

Enquanto o dinheiro do governo vem dos impostos e arrecadações obrigatórias daqueles que produzem, a renda de empresários vem do trabalho intenso, e da escandalosa audácia e hábito incorrigível de satisfazer a vontade da massa, no caso do cinema, de levar lazer e diversão para milhões, que escolhem assistir aos seus filmes por livre e espontânea vontade. É a renda do governo que vem com o carimbo de exploração e imoralidade, ao contrário do que pensava gente de esquerda como Kelly.

E.. o sonho, ideológico, acaba

Entre o sonho socialista imposto por autoridades, com graves consequências sob a vida de todos os cidadãos de um país, e até de outros países, e um sonho fugaz e momentâneo como o mostrado nos cinemas da velha Hollywood, podemos ter certeza que o segundo é muito mais benéfico tanto para aqueles que produzem shows, filmes e espetáculos, quanto para aqueles que os consomem de bom grado e escolhem quando e quanto sonho querem vivenciar.

Gene Kelly que era magistral em provocar sonhos em multidões com seu talento, viveu o restante de sua carreira melancolicamente, com filmes abaixo da crítica nas décadas seguintes, sem chegar perto do prestígio que viveu com seus musicais na época em que os grandes estúdios “exploravam” ele e os demais artistas. Possivelmente, Kelly passou por pesadelos com o Estado que o prejudicou e o marcou até sua morte em 1996. O mesmo Estado que ele imaginou que realizaria seus sonhos ideológicos.

Referências:

– Castro, Ruy. Um filme é para sempre. 60 artigos sobre cinema. Organização Heloisa Seixas. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.

– Einstein, Albert. Why socialism ? Monthly Review. 1949 May. Acesso em: http://www.exponentialimprovement.com/cms/uploads/Einstein%20on%20Why%20Socialism.pdf

– Neffe, Jürgen. Einstein – Uma Biografia. Barueri, SP: Novo Século Editora. 2012.

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