Não precisa ser difícil dar uma notícia ruim. Especialmente se você lida com equipe ou então atende pacientes ou vítimas. Este artigo vai te conduzir a uma das diversas formas de proceder com a parte psicológica mais delicada das emergências.

A primeira coisa que precisamos ter em mente é que a palavra pesa. Promessas falsas são um teto de vidro. Sabe aquele momento que você vê, dentro do seu conhecimento profissional, que a situação vai desandar para o pior e você diz “vai melhorar, eu prometo”? Pois é…

Chamamos isso de “mentira piedosa”. Mas ainda tem o oposto disso, quando você chega sem preliminares e diz “você está morrendo”. Qual deles você prefere ouvir se for você o outro lado?…

Eu particularmente, prefiro a verdade, sempre. Mas não precisa ser como um balde de gelo para apagar uma churrasqueira com fogo.

Você precisa passar a informação que a pessoa precisa saber e ainda saber fazer isso de modo a garantir que ela compreenda. Parece bem difícil se não está habituado. Mas vamos lá:

Existem metodologias para isso. Uma delas particularmente me interessa, é um protocolo médico, usado para entregar a notícia ruim de forma assertiva, menos agressiva, mas sem muitos rodeios e nunca com uma mentira piedosa.

Método SPIKES

Vamos lá. Basicamente o método consiste em preparar-se a altura da situação e ouvir antes de falar. Vamos às etapas:

S – Setting up: Preparando-se para o encontro

Sabe aquela dica de falar na frente do espelho? Praticar realmente faz a diferença. Você precisa estar sempre calmo mesmo que a notícia seja catastrófica. Pense que podem haver informações que para você sejam básicas mas para o outro, podem ajudar a compor uma decisão futura. O ideal é que estejam em um local tranquilo, onde a conversa seja particular.

As pessoas sentem segurança quando não estão sozinhas; se possível, mantenha o receptor da má notícia junto de alguém de sua confiança e convivência. Sente-se e procure não ter objetos entre você e a outra pessoa. Seja sempre muito atencioso.

P – Perception: Percebendo o interlocutor

Investigue o que a pessoa já sabe do que está acontecendo. Procure usar perguntas abertas.

I – Invitation: Convidando para o diálogo

Identifique até onde a pessoa quer saber do que está acontecendo, se quer ser totalmente informado ou se prefere que outra pessoa de seu convívio tome as decisões por ele. Isso não é raro de acontecer. Se a pessoa deixar claro que não quer saber detalhes, mantenha-se disponível para conversar no momento que ele preferir.

K – Knowledge: Transmitindo as informações

Introduções como “infelizmente não trago boas notícias” podem ser um bom começo. Use sempre palavras adequadas ao vocabulário da pessoa. Use frases curtas e pergunte, com certa frequência, como a pessoa está e o que está entendendo.

Se o prognóstico for muito ruim, evite termos como “não há mais nada que possamos fazer”. Sempre há um plano…

E – Emotions: Expressando emoções

Aguarde a resposta emocional que pode vir, dê tempo a pessoa, ela pode chorar, ficar em silêncio, em choque, tornar-se agressiva… aguarde e mostre compreensão. Mantenha sempre uma postura empática.

S – Strategy and Summary: Resumindo e organizando estratégias

É importante deixar claro para a pessoa que ela não será abandonada, que existe um plano, definitivo ou não.

Informar uma notícia ruim pode ser bem difícil, especialmente se você já tiver experiências ruins com a resposta emocional que isso proporcionou no passado. Este método, ou protocolo, como é conhecido na área médica, é uma forma de organizar a situação, tornando o momento mais mecânico e facilitando para o profissional que vai fazer o comunicado de má notícia.

Presente

Para você que chegou até o final deste artigo e se interessa pelo lado psicológico das emergências, eu tenho um presente. Baixe aqui o livro “A intervenção psicológica em emergências [recurso eletrônico]: fundamentos para a prática / organização Maria Helena Pereira Franco. – São Paulo : Summus, 2015”.

Referências

  1. Baile WK, Buckman R, Lenzi R, et al. SPIKES-A six-step protocol for delivering bad news: application to the patient with cancer. Oncologist. 2000;5(4):302-11.
  2. Lino CA, Augusto KL, Oliveira RAS, Feitosa LB, Caprara A. Uso do protocolo Spikes no ensino de habilidades em transmissão de más notícias [Using the Spikes protocol to teach skills in breaking bad News]. Rev Bras Educ Méd. 2011;35(1):52-7
  3. Cruz, Carolina de Oliveira e Riera, Rachel. Comunicando más notícias: o protocolo SPIKES. Unifesp. Diagn Tratamento. 2016;21(3):106-8.

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