Quem me conhece, sabe que meu perfil é marcado por uma tendência melancólica. Poucas palavras e face cansada. De fato, reconheço que, como cristão, preciso lutar e me esforçar para produzir o fruto do Espírito que é a alegria (Gl 5.23). Contudo, existe uma razão que creio ser plausível para eu ser assim.

Leio muitos livros. Isso me trouxe grandes benefícios, mas por outro lado grandes dificuldades. Aliás, como já alertava Arthur Schopenhauer [1788 – 1860]: “Quanto mais claro é o conhecimento do homem – quanto mais inteligente ele é – mais sofrimento ele tem; o homem que é dotado de gênio sofre mais do que todos.” O rei judeu Salomão também percebeu isso, quando escreveu que “(…) quanto maior a sabedoria maior o sofrimento; e quanto maior o conhecimento, maior o desgosto.” [Ecl 1:18].

Quero dizer com os livros que, entre os muitos escritores, existem autores que são tão bons em nos escancarar a dureza da realidade temporal, que depois de lê-los, você nunca mais consegue ser o mesmo ou lidar com a vida da mesma forma. No meu caso, foram Salomão [990 a.C – 931 a.C] e Fiodór Dostoievski [1821-1881].

Dostoievski conseguiu me ensinar que toda a vida, quando reduzida ao mundo natural, por mais belo que seja aqui e ali, tem um fim inexorável e inevitável. O escritor russo demonstra com tanta habilidade o desespero de um eixo de existência puramente horizontal que você fica exaurido com a leitura. Para nos deixar horrorizados em situações de grande alegria, Dostoievski insiste em nos despertar o que esquecemos exatamente nestes momentos: o fim. O que ignoramos propositalmente para aumentar o prazer temporário: a morte.

Dostoievski em várias obras – mas principalmente em “Memórias do Subsolo” – ensina que tudo o que conhecemos materialmente, será deteriorado. É o destino. E ignorar não irá mudar. A natureza vai te atropelar. E eu me lembro bem dessas verdades quando enterrei meu avô, e depois chorei sobre o caixão de minha melhor amiga, minha avó. Sem dúvida, isso produz em nós uma postura mais ponderada diante das alegrias do mundo. Você fica… digamos, mais amortecido. Mais realista?

Aprendi a mesma verdade com as Sagradas Escrituras, com o Sábio de Eclesiastes, o Rei Salomão. Ele escreveu que “melhor é a mágoa do que o riso”.  Por quê? Porque “a tristeza do rosto torna melhor o coração. O coração dos sábios está na casa do luto, mas o coração dos tolos na casa da alegria.” [Ecl 7:3,4]. Sim, ele considera tolo essa festividade toda. E mais: “Melhor é o fim duma coisa do que o princípio.” [Ecl 7:8.]. Para Salomão, a “festa” começa quando a festa acaba. Salomão desenvolveu – considerando meu anacronismo proposital – um niilismo santo. E eu o abracei como filosofia de vida. Ele quer que você perceba o que é sua existência nesse mundo: um sopro. Ela é finita, você vai morrer e precisa se apegar em algo que está acima da materialidade, do terreno, do mortal.

Por fim, não julgo inocente aqueles que vivem sorrindo para o mundo. E sei que muitas das minhas murmurações é a consequência de quando vejo as coisas somente por esse lado; da finitude, da fraqueza da temporalidade, da marca de morte em cada pedaço de vida. Mas como equilibrar e sobreviver assim? Dou graças ao meu Deus, senhores… que acima de toda essa realidade finita, é Eterno e sacia este coração desejoso pela eternidade por meio da graça em Cristo. Deus em Cristo e sua luz irradiando na criação e sendo reconhecida nesta realidade temporal que será graciosamente redimida é única razão para qualquer sorriso genuíno que eu venha a abrir.

Por outro lado, considero a maior tolice e infantilidade todo e qualquer sorriso fora de Cristo. Que perca de tempo, de sentido! Que cheiro de morte! Sim, que ingenuidade. Está chegando o carnaval; como detesto toda essa alegria sem vida eterna. Como detesto esse momento tão infrutífero e inútil. Carnavalescos, ouçam, é hora de exercitarem um pouco de “memento mori” e lembrarem-se de que não sois deuses, sois mortais e vão morrer!

Como escreveu David Brainerd [1718-1747] como “é surpreendente que os vivos, que sabem que devem morrer, apesar disso ‘adiem o dia mau’, em tempos de saúde e prosperidade e vivam há uma distância tão terrível da familiaridade com o túmulo. Como são raros aqueles que vivem, dia após dia, como se estivessem às vésperas da eternidade.”

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