“Não toque nele!”, “Espere o bombeiro”, “Não pode mexer!”; quantas vezes ouviu estas frases? Neste artigo meu objetivo é apresentar o que você pode fazer, como e por que, além de 4 boas razões para não depender totalmente de um serviço de resgate.

A dor

Dentre tantas opções de temas, por que escolher justamente “meter o dedo na ferida”? Porque como profissional de emergência, me deparo com um enorme despreparo na aplicação de avaliações de vítimas e pacientes, podendo conduzir a piora no quadro da pessoa por omissão, mesmo que não proposital. De tanto ouvir a frase “Não há nada que se possa fazer a não ser esperar o bombeiro”, resolvi mostrar que há sim e é muito mais importante do que você imagina.

O mito

APH – Atendimento Pré Hospitalar, é principalmente avaliar. Conhecer a biomecânica ou cinemática do trauma ou ainda mecanismo de injúria. Conhecer anatomia. Conhecer fisiologia. Saber como o corpo funciona quando sadio para saber quando algo está errado e saber pontuar o que está errado que pode levar a um risco de morte ou danos secundários.

A função do técnico em enfermagem no cuidado com o paciente é uma avaliação constante, observando e produzindo relatórios de qualidade que possam garantir ao médico que a evolução está esperada ou é necessário nova intervenção, diagnóstico ou prognóstico. A do técnico em atendimento pré hospitalar (socorrista), é avaliar a vítima e prover suporte necessário para a extinção ou minimização do risco à vida ou de agravar a lesão, com manobras emergenciais não invasivas e transporte ao ambiente hospitalar.

Em todos os casos do profissional que lida com pessoas doentes ou feridas, avaliar é fundamental. Na prática, no entanto, não é bem assim que acontece. O profissional que não compreendeu a sua função, talvez por um processo de formação deficiente, anseia por realizar procedimentos e acaba passando por cima de uma avaliação precisa, podendo causar novos danos ou deixar de observar danos graves nem sempre aparentes.

A avaliação que qualquer um pode (e deveria) fazer

Avaliação neurológica. Entender o estado da pessoa como um todo através de uma classificação do seu estado mental no momento da abordagem. Isto qualquer pessoa deveria saber fazer.

Para quem é este artigo

Isso pode ser feito por um bombeiro ou socorrista com uma vítima presa em ferragens, por um enfermeiro com um paciente acamado ou com um pai com seu filho pequeno passando mal em casa, sem qualquer noção de atendimento de emergência. Não é um conhecimento restrito ao profissional de saúde e arrisco dizer que é fundamental principalmente para pais e pessoas que trabalham no ambiente escolar ou esportivo.

4 grandes vantagens

É possível, por meio de uma avaliação dinâmica, entender em segundos a gravidade geral da pessoa. Essa ferramenta é de grande utilidade por diversos fatores:

  1. Elimina o pânico e o tempo angustiante de espera por um atendimento
  2. Identifica o recurso necessário para o atendimento profissional
  3. Possibilita um tempo de resposta menor da equipe necessária
  4. Fornece informações coerentes sobre o estado da vítima/ paciente

Existe uma série de coisas que analisamos em situações onde existem vítimas, mas como o objetivo aqui não é uma aula de procedimentos então vou ignorar essa parte.

A questão é que grande parte dos óbitos por trauma se dão por sangramentos importantes, sejam externos ou internos ou então lesões na cabeça.

Ao realizar uma avaliação neurológica assertiva, conseguimos identificar alterações importantes que nos dão a conhecer o quadro atual e indícios sobre um quadro futuro da vítima e, portanto, classificam a gravidade da lesão, ou do estado geral.

A escala de coma

Esta classificação de gravidade, a escala de coma, é uma avaliação feita nos principais grupos de resposta do nosso corpo para testar o funcionamento de diversas partes do nosso cérebro, sendo classificado do 1 ao 15, sendo o 1 o mais grave e o 15 o menos grave.

Para parâmetros gerais, chamamos o 15 de “consciente e orientado”, quando a vítima ou paciente tem total noção de quando e onde está, os processos mentais dela acontecem normalmente. Já o 1 vai desde o “inconsciente” ou “coma profundo”, quando a vítima ou paciente está completamente inerte sem reação alguma no corpo, até o óbito, lembrando que apenas um médico pode declarar isto, a menos que hajam lesões incompatíveis com a vida. De forma geral, sendo direto: a menos que a cabeça não esteja totalmente separada do pescoço, ou o corpo esteja em estado de decomposição, não podemos dizer que está morto, apenas um médico pode atestar.

Dados

Temos os seguintes números quando falamos de lesões na cabeça, comparando com a idade da pessoa:

Dos 15 aos 20 anos, a porcentagem de morte com avaliações na Escala de Coma de Glasgow igual a 1 é de 43 a 48%. De 25 a 30 anos, vai de 53 a 58% de óbito. Esta proporção cresce exponencialmente, passando dos 80% de óbito aos 60 anos.

Já com Glasgow avaliado em 15, aos 80 anos apenas 8% das pessoas com lesão na cabeça vem a óbito, enquanto aos 15 anos, este número cai para 1%.

A mesma lógica se aplica sobre a recuperação de vítimas ou pacientes comparados à faixa etária. Quanto maior o resultado da avaliação na ECG, Escala de Coma de Glasgow, maior a chance de recuperação, inversamente proporcional à idade, ou seja, quanto menos anos de vida a pessoa tiver, maior a chance de recuperação, que se multiplica quanto maior for a pontuação na ECG.

Coma

Vamos por partes. O que é o coma.

Coma é o oposto de consciência. Quando a pessoa está alheia ao ambiente, sem conhecimento do que está acontecendo, sem a percepção de tempo e espaço.

Glasgow

“Glasgow é o nome do Instituto de Ciências Neurológicas do Reino Unido, onde, em 1974, Graham Teasdale e Bryan J. Jennett desenvolveram uma metodologia que permite uma análise de sinais do paciente para determinar o nível de dano neurológico e assim possibilitar um tratamento adequado.”

Barbosa, Rodemaker Martins. Como salvar vidas com a escala de coma de Glasgow. MB Editora. Maringá-PR. 2020. p.22

A Escala de Coma de Glasgow

É a avaliação neurológica baseada em quatro parâmetros: abertura ocular, resposta motora, resposta verbal e reflexo pupilar, por meio de – verificação, observação, estimulação e pontuação.

A grande tacada da ECG é que ela é universal. Em qualquer língua em qualquer sistema de saúde com qualquer equipe de atendimento à emergência, é empregado a Escala de Coma de Glasgow, possibilitando que todos estejam na mesma página sobre a informação do paciente ou vítima.

Aplicação

Geralmente é decorado a forma de aplicação, o parâmetro da resposta e a pontuação. Em uma avaliação escrita ou oral o aluno até consegue se sair bem. Quando o profissional atua na enfermagem dentro de um hospital e tem a possibilidade de ter consigo uma fonte de consulta, ainda vai. Mas quando se está na rua, no calor do momento, a coisa pode ficar bem complicada. Ainda dentro de um hospital, a incapacidade de uma avaliação rápida e assertiva faz perder preciosos minutos na indecisão de acionar um médico e não é preciso dizer quem em determinados casos, tempo é literalmente vida.

Eu acredito realmente em dois pilares para o aprendizado: ele deve ser simples e deve apresentar suas razões.

Por isso decidi preparar um material exclusivamente para esta técnica. Chama-se “Como salvar vidas com a escala de coma de Glasgow” e está disponível na Amazon. O livro é curto e direto, mas explica o que nenhum profissional ensina em sala de aula: o porquê da avaliação, além de expor de forma prática, tornando o seu emprego natural e mecânico para nunca mais precisar de uma cola.

Basicamente a composição da escala se dá em 3 níveis de lesão cerebral, do mais superficial ao profundo sistema nervoso central.

Como já comentei, a pontuação vai do 1 ao 15. Agora você precisa saber que o 8 é o divisor de águas. Do 8 para baixo, a vítima precisa de um médico com muita urgência. Quando no hospital, geralmente representa pessoas que respiram com a ajuda de aparelhos, sob ação de sedativos que as mantém em coma.

Observados se, quando e como os olhos da pessoa abrem e classificamos de 1 quando não abre ao 4 quando já está aberto sem precisarmos pedir que abra.

Investigamos a capacidade de raciocínio da pessoa e classificamos de 1 quando não emite som algum ao 5 quando conversa conosco normalmente.

Estimulamos movimentos nos membros para entender a profundidade da lesão no cérebro ou se o caminho do sistema nervoso do cérebro ao corpo está danificado, classificando de 1 quando não há qualquer reação ao 6 quando a pessoa consegue movimentar quando e como pedimos.

Não tem segredo, você precisa apenas entender como fazer e porquê. Esqueça os números. Apenas leia naturalmente e depois pratique um pouco.

Dica de ouro

Te apresento uma dica bônus para aprender o assunto, abordei na live realizada no canal do YouTube da editora que publicou meu último livro, disponível aqui.

Literalmente como salvar vidas com a escala de coma de Glasgow.

 

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