A cultura sempre foi um campo de batalha ideológico muito bem usado pela esquerda. Livros, músicas, obras cinematográficas, teatro, espetáculos, tudo isso, são armas muito eficazes para influenciar a opinião púbica e direcionar narrativas e comportamentos. Há casos emblemático de uso de obras artísticas que serviram como fonte para pautas política.

As obras artísticas têm função não somente de divertir e entreter, tampouco têm um efeito só temporário. Teorias e narrativas surgem delas. Elas são fonte para elaboração de debates, teses universitárias, discursos, e comumente servem como mote para propaganda ideológica na política, se tornando uma grande influência na sociedade, cujas consequências quando transformadas em ações concretas, todos nós, participantes ou não desse processo, sofremos.

O chamado Mito Fundador é o ponto de partida de diversos processos e movimentos na história. Cada civilização da antiguidade, em todo o mundo, possui seu próprio Mito Fundador. Esse Mito é constituído por estórias antigas e consolidadas no imaginário e no inconsciente coletivo. Repetidas de geração para geração por meio dos diversos elementos das artes, padronizam os atos humanos de acordo com certos princípios éticos e estéticos.

Dentre os elementos utilizados para transmissão do Mito incluem-se: as alegorias, paródias, lendas e personagens do mundo da imaginação. Esses elementos fazem parte do chamado Discurso Poético. Segundo o Filósofo Olavo de Carvalho, os ensinamentos de Aristóteles na “teoria dos quatro discursos”, tratam das maneiras de influenciar o comportamento e as ações das pessoas. Olavo de Carvalho, explica isso quando trata da Teoria, em seu livro Aristóteles em nova perspectiva, e explica a função do discurso Poético,

As quatro ciências do discurso tratam de quatro maneiras pelas quais o homem pode, pela palavra, influenciar a mente de outro homem (ou a sua própria). O discurso poético versa sobre o possível, dirigindo-se sobretudo à imaginação, que capta aquilo que ela mesma presume.”

Uso do discurso poético (…) como forma de conhecimento, principalmente em crianças que estão mais propensas a acreditar livremente na fantasia, ingrediente essencial para a assimilação nesse tipo de fase.

O discurso poético é o mais utilizado pelos formadores de opinião, pois é o de mais fácil assimilação, já que é desnecessário o tratamento intelectual e julgamento racional para sua aceitação e assimilação. Ele não descreve a realidade, mas é muito eficaz para atingir profundamente a mente, pois trata de assuntos genéricos, conhecidos e comuns a todos os seres humanos. Essa é a forma de transmissão do Mito Fundador. Esse é um forte mecanismo de persuasão e formação do imaginário coletivo que pode basear toda mensagem posterior direcionada ao público comum para o convencer e arregimentar para uma causa.

Vejamos, especificamente, alguns exemplos que ocorreram no Brasil do uso de obras artísticas que serviram como base para narrativas e até como Mito Fundador para causas da esquerda, tanto antigas como contemporâneas, e direcionaram os pensamentos e as ações da sociedade brasileira, os quais muitos permanecem no imaginário geral até os dias de hoje.

Cinema – O antiamericanismo

O Brasil sentiu a influência da busca por apoio dos americanos junto aos países da América Latina para se unirem aos Aliados ocidentais na II Guerra Mundial. Quando Argentina e Brasil, sob os governos dos fascistas declarados Perón e Getúlio, tendiam fortemente para o lado do Eixo Berlin-Roma-Tóquio, escritórios estratégicos de Washington usaram a persuasão utilizando elementos de Hollywood, e criaram novos personagens de desenhos animados dos estúdios Disney para angariar simpatia nacional, daí nasceu o personagem Zé Carioca. Assim, foram produzidas animações como Você já foi à Bahia? (The three caballeros, 1945) onde Pato Donald, Zé Carioca e a “baiana” Lucia Miranda (irmã de Carmem Miranda) aparecem juntos dançando, cantando e mostrando as maravilhas do Brasil.

Surgiu também sobre a talentosa Carmem Miranda uma narrativa a época, onde ela foi colocada na mesma categoria dos personagens de Disney. Foi divulgado pela esquerda nacional antiamericana, que ela só foi contratada para atuar em filmes de Hollywood por influência da política de boa vizinhança americana. Mas a verdade é que ela se tornou artista reconhecida e a mulher melhor bem paga de Hollywood na década de 1940, após anos de trabalho em shows e filmes que se iniciaram em 1939, antes da criação desta política americana de aproximação com a América Latina em 1940. Por causa do sucesso incomparável que obteve na indústria do entretenimento mais rica do mundo, despertou a inveja de artistas e jornalistas brasileiros (muitos deles membros do clandestino Partido Comunista do Brasil), que no lugar de elogiá-la e se orgulharem da consagrada artista “brasileira” (na verdade era portuguesa de nascimento mas fazia questão de dizer que era brasileira) preferiram chamá-la de ingrata, vendida aos ianques e americanizada, atacando-a constantemente nos jornais e revistas a cada filme seu lançado.

Literatura – O Golpe militar

Um ano após a deposição do presidente João Goulart, o livro O golpe começou em Washington, do jornalista Edmar Morel, colocou a pedra inaugural do discurso do Golpe de 1964. Mesmo sem provas materiais sobre a influência do governo americano na retirada do presidente brasileiro do poder, por contrariar os interesses capitalistas americanos, o lema virou verdade absoluta repetida milhares de vezes durante todos estes anos.

A revelação da real estória de 1964 só veio na década de 1980. De autoria do ex espião da KGB foragido e exilado nos EUA, Ladislav Bittman, o livro A KGB e a desinformação Soviética: uma visão em primeira mão, vemos que toda a narrativa não passou de uma ação orquestrada por meio de falsificações de documentos do governo americano pela agência de espionagem soviética, e na época a narrativa foi aceita e adotada pela imprensa como verdade. Posteriormente em 2017, mais detalhes destas ações de espionagem no Brasil são mostradas na obra 1964 – O elo perdido. O Brasil nos registros do arquivo secreto comunista, que apresenta documentos de fonte primária extraídas dos arquivos da antiga Tchecoslováquia, comandada a época pela Rússia, mostrando, inequivocadamente, que desde 1954 houvera atividade intensa da espionagem comunista em solo brasileiro, infiltrando agentes treinados que recrutavam, sob disfarce de diplomacia estrangeira, a ajuda de brasileiros, voluntários inconscientes ou apoiadores ideológicos, para obtenção de acesso a informações e documentos estratégicos no governo federal, e que também organizaram grupos e eventos com o objetivo de criar o ambiente para uma revolução comunista.

Música – repressão e censura

A música Para não dizer que não falei de flores mais conhecida pelo seu refrão caminhando e cantando.., do compositor e cantor Vandré, serviu de lema e fonte inspiradora da esquerda e usada como hino de oposição ao regime militar inspirando principalmente jovens estudantes e militantes a se opor e resistir as medidas do governo desde o fim da década de 1960.

Somente na década de 1990 o compositor, a tempos recluso e longe da mídia, ofereceu uma entrevista a Rede Globo onde explicou que nunca fora antimilitarista nem fora obrigado ou constrangido a negar a ser um militante em depoimento, conforme repetia a esquerda nacional. Afirmou que toda essa estória não passou de uma grande manipulação da mídia. Na verdade, ele fizera canções em homenagem a Força Aérea Brasileira, a qual ele mantém contato e que é um forte admirador, inclusive utilizando constantemente os hotéis de trânsito militares do aeroporto do Galeão.

Arquitetura – autoritarismo dos presidentes militares

Na arquitetura, a destruição de um monumento, e não na sua construção, serviu para engrossar a narrativa contra o autoritarismo do governo militar e sobre o presidente Geisel, a demolição do belíssimo Palácio Monroe na cidade do Rio de Janeiro. Depois de ter ganho prêmio internacional pela sua beleza e elegância, o palácio em estilo eclético fora remontado no centro da antiga capital federal, e veio a ser demolido em 1976. Um dos maiores defensores da demolição foi o urbanista Lúcio Costa, o mesmo que idealizou e projetou a nova capital dos sonhos socialistas, Brasília, juntamente com seu sócio e amigo, o comunista de carteirinha Oscar Niemeyer. Brasília, com suas ruas e prédios planejados, vias que privilegiam os carros, sem pontos de encontro populares, enormes espaços vazios e palácios suntuosos para os três poderes (todos numa segura distância do povo).

Lucio Costa que não gostava do tipo de arquitetura do palácio, dizia que só os estilos colonial e modernista eram válidos. Logicamente, após o regime militar autores e intelectuais de esquerda cinicamente protestaram e não perderam a oportunidade de culpar a ditadura pelo fim da obra arquitetônica, esquecendo que o urbanista modernista foi o grande responsável pela demolição com seu forte lobby junto ao IPHAN.

 A literatura de ficção de Rachel Carson

A influência maléfica de obras também foi em direção à agricultura, e o discurso atual contra a agricultura moderna teve também seu próprio mito fundador. A literatura foi a forma utilizada pela ideologia socialista na década de 1960, conduzida pela Nova Esquerda Americana, a New left, para convencer o público a adotar o socialismo como alternativa frente aos riscos que a natureza corria na época com o avanço da tecnologia e do mercado, mesmo que esses riscos fossem baseados em vários dados manipulados. O livro Primavera silenciosa (Silent Spring), de Rachel Carson, deu início ao movimento ecológico, primeiro americano, depois mundial. Publicado inicialmente como folhetim no jornal New Yorker e com linguagem técnica acessível virou livro best-seller no EUA em 1962, misturando casos locais reais com fantasia e muito pessimismo. Com este, iniciou-se o temor popular com relação ao uso de inseticidas e seu efeito devastador na natureza, que arriscaria a saúde, a vida e a existência das gerações atuais e futuras.

O primeiro capítulo do livro mostra um cenário fictício, mas aterrador. Doenças, envenenamentos e mortes de plantas, animais selvagens e domésticos, crianças e adultos; contaminação de rios, mares, ar, solo e subsolo, resumidamente, a extinção da vida no planeta. Há o alerta que essa seria condição que surgiria em breve se não se interrompesse o uso de pesticidas e inseticidas na agricultura, jardinagem ou nos domicílios. Nada disso se concretizou, ou chegou perto, depois de mais de 60 anos depois das previsões, mas a imagem apocalíptica ficou no imaginário, e nas leis posteriores, que resultaram da divulgação das idéias do livro.

Os ecos do silêncio da primavera

A tão valorizada independência local de pequenos povoados e condados americanos, com tradição de autonomia local sobre o poder regulador federal, foi intensamente prejudicada com a federalização das regras de pesticidas. A supremacia das leis federais sobre produção, comércio e uso de pesticidas e a generalização das exigências e regras em todo território, mesmo tão extenso e diversificado como o dos Estados Unidos (de Miami ao Alasca), foram graças a influência da obra de Carson. A obra também resultou na criação da Agência de Proteção do Meio Ambiente (EPA) no fortalecimento da Agência de Medicamentos e Alimentos (FDA), em detrimento aos aspectos técnicos relevantes para a agricultura. A partir daquele ponto, o novo órgão, e diversas regulamentações federais que vieram, poderiam exigir qualquer coisa das empresas, sempre sustentando o argumento que estariam salvando vidas e preservando a saúde das pessoas e do meio ambiente, regulamentações amplamente apoiadas pela opinião pública. Tudo baseado na imagem, de fantasia, mas assustadora, que a autora criou.

Referências:

Carvalho, Olavo de. Aristóteles em Nova Perspectiva: Introdução à Teoria dos Quatro Discursos. Campinas, SP: Vide Editorial, 2013.

Geraldo Vandré quebra o silêncio após 37 anos e fala da ditadura. YOUTUBE. Disponível em <https://www.youtube.com/watch?v=OpUcFX2qVFA>

– Bortoloti, Marcelo. Demolição de prédios históricos foi motivada por arquitetos modernistas. Revista época. 08/03/2015. Disponível em < https://epoca.oglobo.globo.com/ideias/noticia/2015/03/bdemolicao-de-predios-historicosb-foi-motivada-por-arquitetos-modernistas.html>

– Ruy, Castro. Carmen, uma biografia – São Paulo: Companhia das Letras. 2005.

– Silveira, Itamar Flavio da; Carvalho, Suelen. 1964: O que os livros de história não contam. São Paulo: Editora Peixoto Neto. 2016.

– Carson, Rachel. Primavera Silenciosa. São Paulo: Editora Melhoramentos. 1962.

– Petrilak, Vladimir; Kraenski, Mauro Abranches. 1964 – O elo perdido. O Brasil nos registros do arquivo secreto comunista. Campinas SP: Vide Editora, 2017.

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