Vivemos numa época em que qualquer palavra ou pensamento diferente do que sai na mídia e é classificada como “não politicamente correta” é encarada como preconceito. Dependendo do dano subjetivo sofrido por qualquer grupo ofendido (mulheres, negros, gays, e mais recentemente até gordos, baixos, feios..) esse suposto preconceito pode ser punido pela justiça severamente com processo e até prisão. Mesmo sem dano mensurável ou vítima identificável, se tornou arriscado a manifestação de opiniões que não sejam àquelas “aceitáveis”, assim, qualquer fala ou texto que não seja o texto padronizado pela militância vigilante de esquerda ou pela sua liderança é basicamente um crime.

Mas o inverso não ocorre, isso é, se você não é membro da classe dos oprimidos históricos suas reclamações contra ofensas e rótulos não são válidas, inclusive manifestações preconceituosas contra os não-integrantes (heterossexuais, homens, brancos, cristãos) não só não são chamadas de preconceito como são consideradas formas normais de tratamento, quase um direito de manifestação do grupo dos excluídos. Por mais paradoxal que seja, este pode ser chamado de preconceito “do bem”.

Preconceito ainda mais irracional

Mas existe outro tipo de preconceito consegue ser mais irracional ainda, é o preconceito sobre coisas inanimadas. Como se coisas tivessem vontade própria, esse preconceito recai sobre as armas (porque armas matam) contra religiões (alienadoras, somente o cristianismo ocidental, não as demais), contra o cigarro (porque cigarro causa câncer) contra bebidas alcoólicas (porque álcool provoca violência doméstica e acidentes de trânsito), contra publicidade de brinquedos com lanches infantis e guloseimas (porque causam obesidade em crianças).

Esse preconceito desinforma e causa reações desproporcionais e não racionais. Coisas não matam, oprimem, alienam, engordam ou acidentam. São os indivíduos agindo racionalmente que agem, usando esses instrumentos físicos como meio, produzindo resultados que podem ser úteis ou prejudiciais. Embora sem sentido, a narrativa do preconceito vai se espalhando e se avolumando, e acaba com o tempo servindo para estabelecer leis e políticas públicas. Não passa no raciocínio das autoridades que elaboram essas leis e políticas que coisas não possuem caráter intrínseco bom ou ruim, ou possuem poderes mágicos que inexoravelmente influenciam pessoas a tal ponto de conduzi-las a fazer o que não querem como se fossem marionetes.

As vezes parece que vivemos um ridículo ambiente imaginário, como do desenho da Disney de 1957, The story of Anyburg USA, onde os carros falantes (como todos os personagens de desenho) são colocados no tribunal para serem julgados por todos os males de uma cidade. Na animação, acidentes, atropelamentos, prejuízos materiais e outras acusações são jogadas na cara dos automóveis insistentemente pela promotoria, enquanto o advogado de defesa dos carros quase não fala e se recusa a fazer perguntas aos carros, até que chegando sua vez de fazer a defesa, para surpresa de todos, mostra o óbvio dos óbvios no tribunal: não são os carros os responsáveis por tudo aquilo que são acusados, e sim os seres humanos que os dirigem. Depois de perceber isso todos do tribunal ficam perplexos com a realidade e é encerrado o caso.

Preconceitos contra a ciência e tecnologia agrícola

Nessa linha de preconceito contra coisas, os resultados de sua aceitação são muito mais prejudiciais e danosas do que pode se imaginar numa visão a curto prazo. O preconceito contra invenções uteis a vida levam a prejuízos, danos físicos e mortes reais, e exemplificam o mal que resulta de um julgamento apressado e baseado somente na emoção.

Uma das coisas mais atacadas de maneira irracional é a classe de substâncias químicas muito úteis a manutenção à vida e ao homem, e que já foi exaltada como uma grande invenção pelo seu imenso benefício proporcionado a humanidade, os agrotóxicos.

Pesticidas ou agrotóxicos são substâncias normalmente sintetizadas, e que são indispensáveis para a agricultura moderna. Basicamente, o que temos hoje de produção agrícola e de alimentos só foi possível pelo uso da tecnologia de uso de pesticidas. Hoje apesar da esmagadora vantagem científica a favor do uso, junto com suas inúmeras vantagens para produtores e consumidores, a mídia continua seguindo a linha de demonização mostrando de tempos em tempos casos extremos de intoxicações, doenças e mortes, sem esclarecer que essas são causadas pelo uso irresponsável e totalmente contra as indicações de segurança.

O preconceito começa já pela forma de chamar, internacionalmente chamados de pesticidas, no Brasil são: agroTÓXICOS. Se algo se denomina tóxico, não pode ser bom, não é ? Essa denominação já induz o entendimento enganoso das substancias como uma coisa ruim, e ignora que os maiores prejuízos e danos dos pesticidas não veem de sua simples existência, mas sim do uso incorreto, impróprio e, surpreendentemente, também do seu não uso.

O preconceito que realmente mata, aquele contra a ciência

Intoxicações e mortes ocorrem relacionadas aos pesticidas, principalmente tentativas de suicídios e outros usos indevidos, mas um caso exemplifica o custo em vidas que a falta de de uso de pesticidas pode causar.

Em 2007, no interior do Maranhão, ocorreram 38 mortes e 443 casos e internações hospitalares aparentemente sem explicação. Sem um motivo aparente, todas as vítimas tinham em comum os sintomas de cansaço, falta de ar, inchaço nas pernas evoluindo em alguns casos a insuficiência cardíaca. Todos estes sintomas indicavam Beri-beri, doença carencial provocada pela falta de ingestão de vitamina B1 (tiamina). Em investigações focadas na alimentação das pessoas envolvidas no surto, viu-se que a produção local de arroz, base da alimentação na região, era levada ao comércio ou autoconsumida pelas famílias como prática regular da região.

Para esclarecer esses casos relacionado à deficiência vitamínica várias hipóteses foram levantadas como: alimentação carente em vitaminas, esforço físico excessivo, consumo de álcool (que é muitas vezes associado à deficiência vitamínica), e é claro o maior suspeito, envenenamento por agrotóxico que poderia ter sido aplicado à plantação de arroz, ou acidentalmente derramado sobre o arroz colhido.

Mas nada das suspeitas originais se confirmou, e após mais análises uma nova hipótese foi levantada e posteriormente confirmada, as vítimas foram mortas e hospitalizadas não por ação humana ou por uma substância artificial, mas sim por agentes naturais, isto é, não feitos pelo homem.

A natureza faz vítimas

O agente causador foi um tipo de fungo produtor de uma micotoxina (toxina produzida por fungos) chamada citreoviridina. No arroz colhido (armazenado inadequadamente com umidade, no calor e com restos de terra) o fungo se instalou, se multiplicou e produziu a toxina, e depois de comercializado e consumido por famílias da região, agiu no organismo provocando o efeito de bloqueio da absorção de tiamina, a qual o arroz é uma importante fonte. O arroz fonte da vitamina era ingerido, mas a vitamina não era absorvida pelo organismo, causando a deficiência vitamínica.

Mas o que o uso de agrotóxicos tem a haver com esse caso, e como eles poderiam ajudar a evitar mortes? Órgão da Organização Mundial da Saúde da ONU, o CODEX ALIMENTARIUS publica diretrizes e recomendações sobre alimentos e alimentação. Essas diretrizes instruem às autoridades dos países membros a tomarem ações e medidas para resolução e prevenção de problemas.

Dentre essas, existem guias específicos sobre a prevenção da contaminação de alimentos por toxinas produzidas por fungos que crescem em vegetais. Nessas o uso de inseticidas é não só permitido como recomendado para a prevenção da infestação por insetos, que comem vegetais e deixam brechas onde fungos penetram e se multiplicam. Além do uso de inseticidas que podem prevenir a ataque de insetos, outros agentes químicos como fungicidas conseguem o efeito adicional de matar os fungos produtores das toxinas.

Existem atualmente diretrizes CODEX recomendando o uso em plantações específicas de amêndoas diversas e de figos. Essas mesmas recomendações poderiam ter sido seguidas para o cultivo de arroz, mas isso requereria: uma norma específica para essa lavoura, treinamento para produtores, medidas econômicas e técnicas como: mais flexibilidade e opções de produtos para compra, maior concorrência para baixar o preço e melhorar o acesso dos produtores aos produtos, e também orientações técnicas de conscientização, manipulação e aplicação correta e segura destes agentes químicos.

Mas nenhuma destas medidas que poderiam ter salvo vidas é viável nem sequer a médio prazo, pois devido as características e as condições explicadas no artigo 12 mentiras que você sempre ouviu sobre Agrotóxicos , nem autoridades, nem população, nem produtores, tem condições técnicas, psicológicas ou motivação para reconhecer essa necessidade e ter condições de usar os pesticidas de forma preventiva e eficazmente para o bem de todos.

Uma ação a fim aprovar novas substâncias e melhorar o acesso dos produtores a elas seria imediatamente combatida pela imprensa, “especialistas” e artistas famosos se declarariam contra as medidas e denunciariam a absurda aprovação de novos “venenos”, autoridades ficariam temerosos em declarar a favor das medidas, e a própria população seria resistente devido a desinformação vinda da opinião publica, com suas reportagens mostrando os casos, totalmente evitáveis, de doenças e intoxicações.

O povo perece pois falta conhecimento e sobra sentimentalismo

O agir baseado em sentimentos e sensações de que algo deve ser combatido pois sua imagem ou denominação são repulsivas é a pior maneira de julgamento. A natureza nunca beneficiou voluntariamente a vida humana. A competição entre seres vivos por habitat e alimento foi uma constante na história. O homem, contra todas as formas naturais de agressores microscópicos como os fungos produtores de toxinas, prevaleceu com sua inteligência e intelectos superiores e com a análise racional, conhecendo, entendendo e combatendo os riscos à sua vida e ao seu bem estar.

O sensacionalismo da mídia desinforma a população e põem em alerta, numa consciência deformada, as autoridades que vão basear suas ações pelo sentimento e pelo que repercute bem na opinião pública. A ignorância contra a realidade do mundo material causa distorções que inevitavelmente resultam em consequências e prejuízos sérios.

O sentimentalismo impulsiona a luta contra coisas e substâncias levando à inibição do debate e progressivo cerceamento da liberdade de expressão e da discussão racional. Sem base na realidade, qualquer atitude cria situações reais desastrosas, que entre outras consequências mais diretas, faz vítimas reais indiretas, como que no ocorrido no caso específico no Maranhão.

É impossível saber quantas outras vítimas existiram em casos semelhantes, e quantas mais a ignorância, principalmente das autoridades movidas pelo preconceito enraizado, poderá matar.

Referências:

– Inacreditável: Folha sai em defesa de cota para “pessoas feias”. Acesso em 20/01/2022. Disponível em: <https://www.jornaldacidadeonline.com.br/noticias/31091/inacreditavel-folha-sai-em-defesa-de-cota-para-equotpessoas-feiasequot&gt;

– FAO/OMS. Preventing health risck from the use of pesticides in agriculture. Protecting works health series. Disponível em: <https://www.who.int › occupational_health › publications › en › oehpesticides.pdf>

– CODEX ALIMENTARIUS. GENERAL STANDARD FOR CONTAMINANTS AND TOXINS IN FOOD AND FEED. CXS 193-1995. Disponível em: <https://www.fao.org/fao-who-codexalimentarius/sh-proxy/en/?lnk=1&url=https%253A%252F%252Fworkspace.fao.org%252Fsites%252Fcodex%252FStandards%252FCXS%2B193-1995%252FCXS_193e.pdf>

– Podcast. Maranhão combate surto de beribéri causado por arroz. disponível em: <https://emais.estadao.com.br/noticias/geral,maranhao-combate-surto-de-beriberi-causado-por-arroz,125468.

– EMBRAPA ARROZ E FEIJÃO. Prosa Rural – Prevenção de fungos em grãos para melhoria da qualidade da alimentação. Disponível em <https://www.embrapa.br/busca-de-noticias/-/noticia/2491469/prosa-rural—prevencao-de-fungos-em-graos-para-melhoria-da-qualidade-da-alimentacao>

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