Pirandello é um autor moderno e também um dos autores teatrais mais importantes do mundo. Importante ter em mente que o teatro moderno se separa do contemporâneo pelo teatro do absurdo; e que Pirandello tem um programa fundamental que é a busca da identidade. 

Hoje tecerei comentários apenas de 2 obras de Pirandello: “Seis Personagens a Procura de um Autor”, e “O Falecido Mattia Pascal”. 

Seis Personagens a Procura de um Autor foi lançado em 1921, recebido pela plateia com os gritos de “manicômio”. Pirandello centra a sua obra em torno da temática da identidade humana, ou seja, quem somos nós. A obra consiste em uma peça de teatro, em que conta a história de outra peça, ou seja, um metateatro. Entretanto, a peça que realmente importa é a segunda. 

A obra inicia com um ensaio de teatro de uma peça de Pirandello, nisso chegam 6 personagens a procura de um autor, pois eles foram rejeitados pelo seu criador. Essas personagens pedem ao diretor da peça para que os ajudem a existir ao menos no momento da peça, pois, caso contrário, estarão sendo desperdiçados, como a fala do Pai: 

“Isso mesmo, desperdiçados! No sentido de que o autor que nos criou vivos não quis, em seguida, ou não pôde, materialmente, colocar-nos no mundo da arte. E foi um verdadeiro crime, porque quem tem a ventura de nascer personagem vivo pode rir até da morte. Não morre! Morrerá o homem, o escritor, instrumento da criação; a criatura não morre nunca! E, para viver eternamente, nem sequer precisa possuir dotes extraordinários ou realizar prodígios. Quem era Sancho Pança? Quem era Dom Abbondio? No entanto, eles vivem na eternidade, porque germes vivos, tiveram a felicidade de encontrar a matriz fecunda, a eternidade!” 

Como se depreende da passagem acima, as personagens não tem temporalidade, são eternas, são perpétuas no tempo. Ou seja, elas podem ser representadas por muitas gerações de atores. Enquanto que os atores que estavam ensaiando antes dos personagens aparecerem são superficiais, pobres de espírito. O que se percebe é que as personagens são mais intensas, mais humanas, estão à procura do sentido da vida, do seu criador. 

O Pai provoca o Diretor quanto a existência do homem, quem ele pode de fato ser: 

“Um personagem, senhor, pode sempre perguntar a um homem quem ele é. Porque um personagem tem, verdadeiramente, uma vida sua, assinalada por caracteres próprios, em virtude dos quais é sempre “alguém”. Enquanto um homem, não me refiro ao senhor agora, um homem, assim, em geral, pode não ser ninguém.” 

Já sobre a obra “O falecido Mattia Pascal”, há quem diga que Pirandelo escreveu-o com desejo de morte, depois que seu pai faliu e sua esposa enlouqueceu. 

Mattia Pascal fica desaparecido por alguns dias, nesse tempo aparece um corpo masculino, em adiantado estado de decomposição, em um lugar abandonado, em que algumas pessoas o tinham visto antes de seu desaparecimento. Todos da cidade falam que o falecido é Mattia Pascal, sendo publicado o seu necrológico nos jornais, em que Mattia toma conhecimento que já não mais existia neste plano. Com isso, Mattia viajou muito, tentou aproveitar a vida da melhor maneira possível, mas sem ter vínculo com nada e nem com ninguém, ele teve a experiência da morte, quando as pessoas já não se lembram mais dele. 

Ambas as obras são uma metáfora da condição humana depois da queda. No teatro, ninguém mais sabe quem é, estão soltas por aí procurando um autor para dizer-lhes “vocês existem”. Já no romance, Mattia quer se desligar da existência antiga que causava grande sofrimento, mas depois que conseguiu viver outra vida, até com mudança de nome, ele já não sabia mais quem era. 

Nas duas histórias, são como os seres humanos a procura de Deus. “Quem sou eu afinal de contas?”; talvez seja a maior pergunta filosófica que alguém possa fazer.

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