Itamar Flávio da Silveira

Os cursos de ciências humanas recebem alunos estudiosos e alunos menos inclinados aos estudos. Enquanto os primeiros visam sempre o sucesso profissional pessoal e são mais dedicados, os outros por preguiça, ou por dificuldades técnicas, procuram tornar tudo mais leve e mais barato. O aluno mais estudioso tende a ser menos radical em suas convicções, afinal a compreensão dos processos históricos é complexa e tem mais de uma interpretação plausível. Já os alunos de pouca bibliografia, como diz o filósofo Luiz Felipe Pondé, tendem a ser mais seguro daquilo que pensam por ignorar a sua própria ignorância.

Certa vez, num papo de café, fui questionado por um colega de universidade sobre o comportamento de muitos alunos ao concluir o curso. “Por que será que todo aluno medíocre se torna um militante esquerdista?”, perguntara meu interlocutor. Esta é uma indagação que muita gente faz ao ver alunos que são inexpressivos, até a terceira série do curso, se tornar valentes militantes da causa socialista. A resposta é óbvia: porque estudam pouco! Quem estuda pouco escolhe sempre o caminho mais fácil. Mesmo sendo fracos se sentem tentados a ganhar a atenção das outras pessoas, e a forma menos trabalhosa é ter uma posição radical sobre todas as coisas e que esteja de acordo com a hegemonia dominante.

Quando optamos por dar respostas científicas sobre qualquer assunto nos deparamos com dificuldades, afinal os problemas sempre tem uma multiplicidade de causas e, se não quisermos falar bobagens, temos que estudá-los. É muito mais fácil, por exemplo, responder a indagação sobre uma doença como curandeiro do que como médico. O curandeiro pode falar qualquer coisa que lhe der na telha que o ouvinte não contesta, mas o médico precisa revirar livros para dar uma resposta coerente que convença seu paciente. Do contraio o paciente irá procurar outro médico.

Estive olhando o trabalho de um professor de História sobre a literatura de Monteiro Lobato e vi que ele deixou de lado toda a complexidade do tema, e passou a tratar o autor como racista, preconceituoso, que fazia o jogo da elite branca e que tratava os negros com menosprezo. Olha como é fácil! Basta pegar algumas frases soltas dos seus contos e rotular Lobato de forma bem contundente, pedindo inclusive seu banimento. O professor criou argumentos para dar algumas aulas sem a necessidade de estudar nada, sem a necessidade de aprofundar em nada e passará por progressista inovador diante de sua plateia. Afinal, ele é o professor que veio da universidade para ensinar seus alunos. Ele poderá fazer polêmicas discussões em sala de aula simplesmente atacando, de forma rasteira, um dos ícones de nossa literatura. Poderá, ainda, publicar um artigo em revista científica conceituada sobre o tema. Afinal, os editores estão sedentos por artigos que explicitem o “coitadismo” das tais minorias sofridas.

Estudar de verdade é difícil, exige concentração, dá dores nas costas, dá dores no pescoço, dá sono, requer leitura de obras clássicas, requer ver concepções políticas e ideológicas diferentes que, muitas vezes, levam o leitor a mudar de postura teórica. Olha que coisa chata! É muito melhor ler apenas artigos dos amigos que falam apenas coisas com as quais concordamos. É mais prático pegar nosso arquivo, de uma nota só, e passar a vida toda atacando a política externa dos Estados Unidos, por exemplo.

Durante a graduação muitos alunos preferem o entretenimento militante do face book ou sair pra rua para não fazer nada ou praticar um ato “revolucionário” de fumar um baseado, ao invés de ficar em casa estudando. Sem bagagem de leitura o caminho fácil é cumprir funções operacionais da militância política. Ir para Avenida Paulista fazer passeata é, certamente, menos complexo do que estudar sobre o funcionamento do mercado! Pedir passe livre é muito mais simples do que explicar como o Estado pratica a extorsão de dinheiro dos cidadãos para aplicar em cada serviço que oferece gratuitamente à população!

Então, esses alunos medíocres, sem qualquer conhecimento sofisticado, aderem as “boas causas” e seus orientadores, também medíocres – porque estudam apenas as mesmas coisas, a religião do socialismo – ficarão felizes por terem produzido novos professores com “consciência social”, por terem produzido “intelectuais” engajados e tão desinformados quanto eles próprios. São realizações pessoais de um sofisticado mundo de idiotas titulados e com bons currículos. Assim caminham “as humanidades” que habitam nossas universidades.

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