Ensinar ao Padre como rezar a missa

Certo, vamos começar com esclarecimentos necessários: sei que alguns leitores fazem a coisa do modo certo. Alguns. Mas a grande maioria não. Continuemos.

Experiência própria

Infelizmente somam-se diversas experiências negativas ao longo de atendimentos prestados por mim à emergências, sem contudo deixar que balizem as próximas ações, é inevitável o “pé atrás”. Fiz uma busca rápida de memória quando redigia este artigo e pude encontrar um número maior do que poderia contar em ambas as mãos de casos trágicos onde atitudes simples poderiam ter conduzido a um final diferente. Resolvi citar um, o menos pior e mais comum, por razões óbvias.

Estava eu a caminho do trabalho em uma segunda-feira típica da minha região após o almoço. Período bem interessante com relação ao movimento, portanto, atenção redobrada aos outros condutores no trânsito. Sol escaldante. Uma vez pilotando motocicleta, procuro observar padrões de comportamento que me antecipem movimentos de fuga para não ser uma vítima. Poucos metros adiante, dentro da velocidade da via – aliás, uma rodovia federal – uma moça, conduzindo outra motocicleta, de baixa cilindrada, deu mostras sutis de que algo não estava bem. Foi ligeiramente para ambos os lados, retomando o curso rapidamente. Poderiam ser muitas coisas, mas certamente normal não era, então reduzi a minha velocidade, acionando o alerta. Fui ultrapassado por um veículo de passeio de uma forma absolutamente irresponsável, dividindo a faixa comigo, “tirando fina” bem no momento em que ela veio ao chão. Resultado quase que calculado, ela teve o corpo atropelado pelo veículo. Reduzi a velocidade, não parando de imediato, deixando a moto bem a frente no acostamento, sinalizada, voltei caminhando pela borda da pista sinalizando com as mãos pedindo atenção e menos velocidade. Alguns veículos pararam e me forneceram triângulos, que usei desde longe do evento, em um estreitamento de via.

Uma vez sinalizado e despachados os curiosos não úteis (ficaram dois rapazes que identificaram-se como bombeiros civis), o acionamento à PRF foi feito em simultâneo a minha abordagem à vítima. Haviam lesões importantes, incluindo fratura de fêmur. Poucos minutos decorreram até que duas viaturas estivessem no local.

Corrigindo: estivessem em cima da moça, quase literalmente tocando-a com o para-choque.

Resumo da ópera: não foi feito sinalização permanente, a via não foi sinalizada pelos agentes (é este o seu escopo, visto que a vítima já estava em boas mãos), não foi estacionado as viaturas como deveriam. E ainda houve discussão comigo pela insistência que fosse feito. 10 minutos após a chegada, nova colisão, desta vez na traseira de uma das viaturas, felizmente sem novas vítimas. Mas poderia ter. Como houve neste domingo 02/08/2020 em São José dos Pinhais, PR.

São José dos Pinhais

Imagem do acidente em São José dos Pinhais neste domingo, 02/08/2020. Créditos: @bombeirospr_sjp no Instagram

Sobre o engavetamento deste domingo, poucos veículos de mídia mencionaram o fato de que o primeiro acidente deu-se entre um motociclista e uma viatura da Polícia Militar. Ora, havia fumaça densa na pista… mas havia giroflex (luzes vermelho e azul intermitentes)…

Por mais estranho que pareça aos seus olhos e ouvidos, leitor, emergências causadas por órgãos de resposta são mais corriqueiras do que deveriam, mas não são informadas porque não há realmente interesse neste tipo de transparência. Não estando eu no local, não posso afirmar que houve culpa, até porque o CTB estipula uma espécie de “culpa automática” para quem colide na traseira de outro… mas posso dizer que foi evitável. Talvez não as 8 mortes ou mais de 20 feridos, com 35 veículos engajados. Mas alguns destes números, sim. Ou melhor, algumas destas vidas, sim!

Segundo o 6º Grupamento do Corpo de Bombeiros Militar do Paraná, uma guarnição foi acionada para combate à incêndio ambiental as margens da rodovia, quando, chegando no local, deparou-se com o engavetamento. Foi estabelecido Posto de Comando, isolamento e segurança, de acordo com a informação à imprensa, sendo realizado triagem e classificação das vítimas através do método Start, além do combate ao incêndio.

O relatório à imprensa contabilizou 23 veículos envolvidos:

  • 01 caminhão
  • 01 viatura da PMPR
  • 05 motocicletas
  • 16 veículos leves

As vítimas informadas foram:

  • 7 óbitos (atualizado para  posteriormente)
  • 2 em estado gravíssimo (das quais 1 evoluiu a óbito)
  • 5 com ferimentos leves
  • 16 com escoriações superficiais

Além disso, foram empregados na emergência os seguintes recursos:

  • 11 viaturas do Corpo de Bombeiros Militar
  • 03 viaturas do Samu
  • 04 viaturas da concessionária
  • 02 viaturas da Polícia Científica
  • 05 viaturas da Polícia Rodoviária Federal
  • 03 viaturas da Guarda Municipal de São José dos Pinhais
  • 02 viaturas do IML
  • 01 viatura da Polícia Civil
  • 03 viaturas da Polícia Militar

Agora alerto que para alguns, ler isto pode causar náuseas, ataques de gastrite e “ego edema”:

Giroflex não é campo de força. Pisca-alerta não é escudo. Uniforme refletivo não é armadura.

Sim, meus caros, estar dentro de uma viatura não quer dizer absolutamente nada além de que é o mais servo dentre todos os homens livres. Deixemos a análise inacabada (e ficará assim) para tratar de uma sugestão de procedimento, divida entre cidadão e operador.

A razão pela qual não uso os termos “bombeiro” ou “polícia” para os agentes de resposta é óbvia: ainda tenho esperanças de um mundo onde possa coexistir o agente de resposta público e privado, sem batalha de egos inútil, portanto aplica-se ao servidor público e agente privado igualmente:

Cidadão

  • Atente-se sempre a uma distância maior do que o campo imediato à frente
  • Use os espelhos retrovisores, as setas de intenção de virar, o pisca-alerta
  • Ao se deparar com uma emergência, reduza gradativamente a velocidade
  • Não pare sobre a faixa de rolagem, sempre que possível vá para o acostamento
  • Mantenha sempre uma boa distância de segurança, mesmo na hora do rush
  • Sinalize todas as intenções de sair do ser curso; ainda não há imposto sobre o uso da seta
  • Não importa o que aconteceu, nunca vá ver antes de sinalizar a uma boa distância!

Operador

  • Não tem o direito de atrapalhar a vida dos outros sem motivo: estacione fora da via, sempre
  • Ao deparar-se com um risco que apresenta alta probabilidade de acontecer, não vá diretamente para ele: providencie uma forma de alertar as pessoas sobre isso antes de agir para remover
  • Excetuando os veículos específicos para o cuidado com a emergência que devem operar na área quente, não vá para lá com a viatura, aliás o próprio PC é montado fora. E existem áreas específicas para estacionamento em uma operação deste porte
  • As luzes intermitentes não são um farol ao mar, podem sim passar desapercebidas em meio ao cenário moderno da civilização urbana – não confie nelas

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